Resistente à ditadura, jornal Coreto ganha exposição, pocket show guaxupeano e DJs

5 Dez, 2025 - 15:44
16 Dez, 2025 - 10:40
Resistente à ditadura, jornal Coreto ganha exposição, pocket show guaxupeano e DJs
Miguezinho Gabriel, Marcos Saad, Romeu Lepiani e Luiz Prósperi (Fotos: Caetano Cury)
Resistente à ditadura, jornal Coreto ganha exposição, pocket show guaxupeano e DJs
Resistente à ditadura, jornal Coreto ganha exposição, pocket show guaxupeano e DJs

Após o primeiro festival de jazz, a Casa da Lorice encerra o ano artístico em 13.12, num sábado, com três ações culturais.

Mais uma vez valoriza a cultural local com um pocket show dos músicos guaxupeanos Romeu Lepiani, Miguezinho Gabriel e Marcos Saad.

O jornalista Luiz Prósperi, que fez cobertura in loco de nove Copas do Mundo, abre a exposição sobre o jornal Coreto.

Um dueto de DJs vai animar a Festa com música dançante dos anos 1970 e 80.

A exposição é de exemplares e matérias de um jornal histórico que teve apenas 14 edições.

Fundado por um grupo de amigos na ditadura, em julho de 1977, o Coreto era publicado somente nas férias universitárias do meio do ano e de dezembro a fevereiro.

Em quatro anos, chegou ao número 14.

O encerramento, em agosto de 1981, coincidiu o término do curso universitário da maioria dos participantes.

Luiz Prósperi (um magro com apelido de Gordo) conta uma das repercussões do jornal em fevereiro de 1978, quando a Polícia foi chamada para finalizar um baile de carnaval no Clube Guaxupé.

“Houve tiroteio e pessoas feridas dentro no salão e na praça dos bambolês. Aberto um inquérito, o delegado de Guaxupé responsabilizou o Coreto por ter provocado os incidentes. Alegou que o jornal incitava a sociedade guaxupeana contra as autoridades locais.”

Cantor, compositor e diretor de arte em São José dos Campos, SP, Romeu Lepiani se recorda de uma matéria de capa sobre o pedreiro Tiãozinho, “que morreu em circunstâncias duvidosas sob a guarda da Polícia local. Houve um rebuliço para interditar o jornal. Tivemos que cobrir a capa de preto. Depois lançamos com a matéria inteira.”

A publicação teve mais de 50 colaboradores, de diversas áreas.

“Contra o sistema político da cidade, cobrava investimentos e diversidade na cultura local. Denunciava repressão da Polícia, levantando casos de cidadãos guaxupeanos mortos na cadeia e em beiras de estrada.”

Como consequência dessa proposta editorial, um dos sócios da gráfica Correio Sudoeste vetou a impressão das edições 8, 9 e 10.

Depois, retomou a publicação, que “denunciava tratamento aos moradores das periferias da cidade e boias-frias que trabalhavam nas colheitas de café nas grandes fazendas.”

O Coreto não defendia nenhum partido político da época.

A Igreja e o bispado participaram da ditadura em regiões e municípios brasileiros. Lepiani informa que em Guaxupé a “Igreja nunca nos procurou ou censurou o jornal. Fizemos uma reportagem sobre o padre Olavo na Paróquia São José Operário, que foi muito bem aceita por todos.”

Padre Olavo escrevia para o Coreto, que não era restrito a leitores e colaboradores jovens.

Afronta à Polícia

Para Lídia Saad, o Coreto foi uma fase determinante na sua vida e construção ideológica.

Adolescente, ela fazia o controle financeiro do jornal, que sobrevivia com recursos próprios.

Vendia assinatura e publicidade para o comércio local, principalmente profissionais liberais.

Escondia os jornais em casa por medo da Polícia, que era muito truculenta.

Ser contra a ditadura militar resultava em perseguições constantes das polícias militar e civil de Guaxupé e da repressão do estado mineiro.

Prósperi cita invasões de soldados e detetives no bar Zoião, “Era o nosso reduto e ponto de encontro para diversão e muita música tocada por nossos músicos e compositores.”

Hoje, no antigo Zoião, (começo da Rua Aparecida) é só perfume.

O repórter esportivo idealiza: “Quem sabe se exale dali o perfume da liberdade impregnado em suas paredes.”

Jornalista, cantor e compositor, Marcos Saad encaminhava exemplares do Coreto aos jornais Estado de Minas e O Estado de São Paulo.

A acusação da Polícia de responsabilizar o Coreto pelos incidentes no Clube teve repercussão na grande imprensa, que divulgou o fato a autoridades.

Houve transferência dos policiais de Guaxupé. Uma afronta!!!

“Transferidos para Guaranésia, mas transferidos”, recorda Marcos.

Coreto fez Arte

A Casa da Lorice volta ao tempo com o Coreto, compositores e cantores guaxupeanos dos anos 1970 e 80.

Será exposto também o lado artístico do jornal, que “cobrava mais ação da juventude da cidade em manifestações culturais. Exaltava os grupos de resistência como a Frente Negra. O folclore local com as Folias de Reis.”

A arte nas capas do Coreto tinha visual diferenciado dos jornais tradicionais.

“Inspirava na imprensa alternativa, muito forte nos anos de 1970 em todo o País.”

Sem grandes fotos e charges para não encarecer a edição, o Coreto publicou contos e poemas de Elias José, Chica Villas Boas, Tião Rezende, Marco Antônio Soares, Zé Maria Pereira...

Escreveu sobre a música de Casé, já homenageado na Casa da Lorice.

Há outros registros culturais.

O cantor e compositor Miguezinho Gabriel acrescenta que a antiga faculdade de Guaxupé, Fafig, cedeu um espaço para a equipe do jornal reestruturar um auditório com palco.

Nesse “Teatro Coreto” aconteceram apresentações musicais e exibição de filmes pelo professor Moacyr Costa Ferreira.

Prósperi e Miguezinho buscaram no Rio de Janeiro livros consignados na editora dO Pasquim para vender no teatro.

O Grupo Cultural Coreto realizou uma Semana de Arte em três locais: Clube Guaxupé, faculdade e Acig, Associação Comercial e Industrial.

Na véspera da Festa na Casa da Lorice, dia 13, haverá outra matéria no Jornal da Região sobre o pocket show.

O dueto de DJs é para os convidados dançarem muito. (Contato Instragram: casadalorice).

(Silvio Reis)