‘Retaliação do PGC’: execuções de jovens mineiros em SC foram resposta à invasão do PCC em favela de Florianópolis
Os jovens tiveram os cabelos raspados e, segundo informações apuradas, ao menos um deles teve os olhos arrancados
A execução dos quatro jovens mineiros encontrados mortos na Grande Florianópolis não foi um crime aleatório nem um episódio isolado.
Segundo apuração exclusiva do Jornal Razão, os assassinatos foram uma resposta direta do PGC a uma incursão armada promovida por integrantes do PCC em uma área considerada território pertencente à facção catarinense, em Florianópolis.
A linha do tempo dos fatos revela um encadeamento claro.
O ataque do PCC ocorreu na noite de 27 de dezembro.
Horas depois, na madrugada do dia 28, os quatro jovens desapareceram.
Dias mais tarde, todos foram encontrados mortos, enterrados em uma área de mata usada como cemitério clandestino.
O ataque que acendeu o estopim
Na noite de 27 de dezembro, por volta das 20h, criminosos armados invadiram a comunidade Novo Horizonte, no bairro Capoeiras, região continental de Florianópolis.
A área é conhecida, há anos, como zona de influência do PGC.
“Torturados e mutilados”: PMSC encontra corpos dos jovens que desapareceram na Grande Florianópolis
Segundo informações repassadas ao Jornal Razão, os invasores estavam armados com fuzis e efetuaram diversos disparos dentro da comunidade, numa ação típica de tentativa de execução e demonstração de força.
Equipes do Tático do 22º Batalhão da Polícia Militar de Santa Catarina foram acionadas e chegaram rapidamente ao local.
A resposta foi decisiva.
Dois suspeitos foram presos em flagrante ainda durante as diligências, enquanto outros conseguiram escapar.
Com os detidos, os policiais apreenderam duas pistolas calibre 9mm e celulares que agora integram a investigação.
Contra um dos presos, havia um mandado de prisão em aberto, com condenação definitiva e pena próxima de 20 anos em regime fechado.
A atuação da Polícia Militar de Santa Catarina impediu que o ataque tivesse vítimas fatais e conteve uma tentativa clara de avanço territorial.
Dentro do mundo do crime organizado, porém, a invasão foi interpretada como uma afronta direta.
Uma guerra antiga que nunca terminou
A comunidade Novo Horizonte e regiões próximas, como a Chico Mendes, vivem sob tensão há mais de uma década.
Até o início dos anos 2010, o tráfico local funcionava de forma fragmentada, sem domínio absoluto de facções nacionais.
Esse cenário mudou quando o PGC passou a exigir alinhamento formal, regras internas e repasse de lucros.
Parte dos traficantes aceitou a imposição.
Outro grupo recusou e buscou apoio do PCC, que avançava sobre Santa Catarina oferecendo armas, proteção e estrutura.
A partir desse rompimento, o território foi literalmente dividido.
Ruas passaram a separar áreas dominadas por facções rivais.
Entre 2015 e 2016, o conflito atingiu o auge, com execuções em plena luz do dia, perseguições armadas e operações policiais de grande porte.
O padrão nunca desapareceu.
Ele apenas ficou latente, aguardando novos gatilhos.
O desaparecimento dos jovens
Foi nesse contexto que Bruno Máximo da Silva, Daniel Luiz da Silveira, Guilherme Macedo de Almeida e Pedro Henrique Prado de Oliveira desapareceram.
Os quatro, naturais de Minas Gerais, estavam há poucos dias em Santa Catarina, hospedados em São José.
Segundo as famílias, supostamente buscavam trabalho e uma chance de recomeço.
Na noite de 27 de dezembro, decidiram sair para Florianópolis.
O último contato com amigos ocorreu perto da meia-noite.
Câmeras de segurança registraram o grupo caminhando junto por volta das 2h da madrugada do dia 28. Depois disso, não houve mais notícias.
O apartamento onde estavam hospedados foi encontrado destrancado horas depois.
Desde o início, as famílias negaram qualquer envolvimento com o crime.
A principal suspeita levantada na investigação foi a de que o grupo teria sido confundido com integrantes do PCC, possivelmente por gestos em fotos antigas nas redes sociais, interpretados no meio criminoso como sinal de facção rival.
Além disso, conversas suspeitas teriam sido vistas nos celulares dos rapazes após os aparelhos serem confiscados e revistados por membros do PGC.
A retaliação
De acordo com informações apuradas pelo Jornal Razão, o ataque frustrado do PCC na comunidade Novo Horizonte foi o fator decisivo.
Dentro da lógica das facções, a resposta precisava ser rápida, violenta e exemplar.
A execução dos quatro jovens ocorreu dentro desse raciocínio de vingança.
Eles teriam sido abordados, levados a um local isolado e submetidos a sessões de violência extrema antes de serem mortos.
Os corpos apresentavam sinais de espancamento, tortura e mutilação.
Os jovens tiveram os cabelos raspados e, segundo informações apuradas, ao menos um deles teve os olhos arrancados.
Após as execuções, os corpos foram enterrados em uma área de mata em Biguaçu, apontada como cemitério clandestino do PGC.
A localização dos corpos
Após dias de buscas intensas, equipes da Polícia Militar localizaram os corpos neste sábado, dia 3.
A área era de difícil acesso e já vinha sendo monitorada pela inteligência policial.
A Polícia Científica foi acionada para a remoção e realização das necropsias, que devem detalhar oficialmente as causas das mortes.
O caso entrou agora na fase final de investigação conduzida pela Polícia Civil, que analisa provas digitais, vínculos entre envolvidos e a cadeia de comando da execução.
Um recado escrito em sangue
Para investigadores experientes, o crime carrega todas as características de um recado entre facções.
A invasão armada em território dominado pelo PGC exigiu uma resposta simbólica e brutal.
A escolha das vítimas, ao que tudo indica, foi baseada em suspeitas ou possíveis conexões com membros rivais, algo recorrente em guerras faccionais.
O caso escancara a permanência da guerra entre facções em Santa Catarina e mostra como ataques frustrados, mesmo sem mortes imediatas, podem gerar desdobramentos trágicos dias depois.
(Com Jornal Razão-SC)












