Colunista do Jornal da Região tem poema publicado em livro de antologia

Colunista do Jornal da Região tem poema publicado em livro de antologia
Colunista do Jornal da Região tem poema publicado em livro de antologia
O jornalista e escritor João Júlio da Silva, que assina a coluna Papoentrelinhas, do Jornal da Região, está fechando 2021 com chave de ouro, pois acaba de ser lançado o livro "Percepção Poética da Pandemia”, um projeto da prefeitura da cidade paulista de Salto, "Antologia do XXIX Prêmio Moutonnée de Poesia", de 2021, o qual ele participa com o poema “Acenos em Salto Poético”.
Conforme consta na contracapa do livro: "Esta antologia reflete o exercício de sensibilidade de mais de mil poetas do Brasil, além da Alemanha, Angola, Austrália, Estados Unidos, Itália, Moçambique e Portugal. Todos submeteram seus trabalhos a esse concurso, cuja temática foi a Percepção Poética da Pandemia. O resultado estético está impresso nas páginas do livro: um retrato multifacetado de empatia e intuição. Nosso período histórico interpretado poeticamente".
Para o autor, é "Fechamento de ano com alegria. Estar no livro já é um prêmio, pois o projeto recebeu mais de mil textos, inclusive, de outros sete países".

O poema

Acenos em Salto Poético
No princípio era o vírus,
e o vírus estava com a morte,
e o vírus era a morte.
O big-bang da pandemia tudo mudou,
a grande explosão desumana...
E o vírus se fez trevas,
e habitou entre nós,
e vimos a sua força,
a força do mal no mundo,
de infecção e morte.
Nos perdigotos da maldição,
a imbecilidade mortífera,
sem vacina, sem máscara.
Aglomerações em contaminados canteiros,
acenos de sepulturas por abrir.
Da planaltina casa de vidro,
o monstro abjeto e sarcástico,
hiena gargalhando em delírio,
infectou o povo e desprezou a vida.
E o vírus se fez carne,
carne sufocada de escuridão,
na ausência de vida!

Há sobreviventes no ar rarefeito,
ainda salta poesia à flor da pele!
No princípio era o verbo...
Do prelúdio do seu voo
brotou a beleza do verso.
E sua luz espalhou sonhos
até os confins do mundo...
Da melódica poesia resplandeceu o poeta.
O verbo se fez poesia e
semeou versos entre nós,
num derramar de sons, cores e luz,
uma pintura de encantamentos.
Ouve-se o grito de Munch
na ponte do horror humano,
angústia trêmula de múmia em pânico,
o céu sangrando a luz do sol a morrer,
como se ouvisse eternamente
o último dobrar de sinos das catedrais.
Ainda assim pode-se vislumbrar
a noite estrelada de Van Gogh
acenando um turbilhão de esperanças.
No campo de trigo com corvos
é possível semear os girassóis
a sorrir arrebatadas manhãs.
No princípio era o verbo,
e o verso estava com ele,
e sua luz derramou sonhos mundo afora,
o homem saltou das trevas e se fez poeta!

A peste há de passar
no voo derradeiro
do abutre do apocalipse
de tenebrosa maldição...
Do outro lado da parede
não há ninguém a caminhar
pela gênese de incautos versos,
a gritar por saída em beco de rua.
O vírus espreita o corpo 
com mortalha solta aos ventos,
bandeira em farrapos, sem cor,
ainda que haja vestígios de
verde e amarelo em sua desgraça.
Arte é resistência,
o verso persiste, a poesia acena
no salto de um novo respirar
além da explosão desumana...