Guaxupé, sábado, 27 de novembro de 2021
Entrevistas

Em entrevista, psicólogo guaxupeano fala de esperança em tempos de pandemia

terça-feira, 30 de março de 2021
Em entrevista, psicólogo guaxupeano fala de esperança em tempos de pandemia O psicólogo Rodrigo Fernando Ribeiro fala de esperança em tempos de pandemia (Foto: Arquivo Pessoal)

Para o psicólogo Rodrigo Fernando Ribeiro, "alguns indivíduos sairão da crise renovados e transformados interiormente, enquanto outros não aprenderão nada".

1. Jornal da Região: Como psicólogo, você acha que as pessoas adoeceram mais mentalmente nesta pandemia?
Rodrigo: Todo período de crise, seja ela pessoal, familiar, comunitária, social, global, se caracteriza por uma etapa de angústia de alma. Uns sofrem mais, definham. Já outros buscam encontrar um sentido, um significado para o momento, encarado enquanto oportunidade de um novo aprendizado. Nesta pandemia tem crescido sim uma busca maior, de algumas pessoas, pelo sentido da vida, pelo significado da existência. Essa busca, no entanto, nem sempre significa presença de doença.
 
2. Jornal da Região: Depressão, ansiedade, síndrome do pânico, fobias, entre outros transtornos psíquicos, têm se tornado comuns ultimamente. Em época de pandemia de Covid-19, esses transtornos tendem a aumentar? E como a Psicologia pode ajudar a aliviar um pouco o sofrimento dessas pessoas?
Rodrigo: Os males podem aumentar em algumas pessoas, já em outras nem tanto. A Psicologia sempre ajuda na tomada de consciência. Nós não habitamos o Paraíso Celeste. Não estamos num contexto de felicidade eterna. O próprio Jesus falou da cruz... da cruz que cada um carrega, falou das dificuldades deste mundo. Estamos peregrinando sobre a Terra, e viver neste planeta implica em passar por contingências. O que são contingências? São eventos circunstanciais, a maioria deles normais, naturais, fazem parte da vida, podendo ou não se tornar severas perturbações, enfermidades. Quando se tornam severas perturbações e enfermidades, o indivíduo pode entender que não está sozinho, não está isolado na sua dor, e conta com formas variadas de acolhimento, escuta, compreensão, apoio, fortalecimento, requalificação da vida e da própria existência. Uma dessas ajudas acontece diante de um profissional da Psicologia. O psicólogo é um cuidador da alma.
 
3. Jornal da Região: Tudo o que está acontecendo irá fazer com que as pessoas tenham um novo olhar para a vida no futuro ou tudo continuará como antes?
Rodrigo: A Psicologia lida mais com a individualidade e menos com a generalidade. Praticamente toda generalização é precária. Então,devemos evitar dizer “as pessoas”.O que podemos afirmar é: alguns indivíduos sairão da crise renovados na mente, transformados interiormente, aquecidos no coração, se tornarão mais sensíveis, compassivos, enquanto outros indivíduos não, não aprenderão nada, continuarão a repetir seus padrões imaturos e até antissociais de conduta. O novo olhar dependerá, portanto, de cada um, de cada pessoa.
 
4. Jornal da Região: Esta pandemia está causando danos de toda ordem: na economia, no comércio, na vida social e, principalmente, na educação. Como a educação anda enfraquecida, de que maneira, no seu entender, vai se recuperar tudo isso? Ou não se recupera mais?
Rodrigo: Se recuperará sim! De que modo? Note bem: Todo ser humano tem dentro de si esperança de plenitude. Estou falando de fé. A fé é uma experiência de Deus. É um lançar-se confiante na fonte primeira de Amor eterno. De muitos modos o ser humano vive essa espiritualidade, que é uma constatação antropológica. Se por um lado existem as religiões das picaretagens, interessadas no bolso dos seus fiéis supersticiosos, há também as religiões sadias, que falam diretamente ao espírito do ser humano, ao coração que pulsa e quer viver. Numa palavra: entusiasmo! A pessoa entusiasmada é aquela que sente Deus dentro de si mesma. E mais: é aquela pessoa que se entrega, aceita, confia e agradece às oportunidades da vida, que vem do Alto, que podem existir também em meio às tribulações. Essa fé sincera impulsiona a pessoa para o alto, com asas de águia, como bem disse o profeta Isaías. Sempre haverá indivíduos que, mesmo caídos, levantarão, sacudirão a poeira e prosseguirão na caminhada rumo a uma educação de qualidade, que já pode começar dentro de casa. O lar pode e deve se transformar em igreja doméstica, casa de oração, e também escola, a primeira escola, local de estudo, onde a criança já pode aprender valores morais e éticos, aprender a cuidar, a partilhar. O lar é território sagrado. Escola também. A Família é a primeira educadora. A Escola prossegue nessa jornada. Se queríamos todos uma educação voltada para a sensibilidade e genuína criatividade, estamos num tempo oportuno para que tudo isso cresça e se desenvolva nas mentes e nos corações. Será fácil? Ora, ora, alguém está prometendo facilidades? Claro que não será fácil. Fácil é desistir, fácil é reclamar, cômodo é resmungar, vício é fofocar. Mas pra quem perseverar, terá a sua recompensa. Em vez de inutilmente maldizer as trevas, fará parceria com a Luz.
 
5. Jornal da Região: Como você vê esta questão de pandemias, uma vez que o Brasil já passou por outras: elas vêm para mostrar alguma coisa?
Rodrigo: Na minha opinião, repito, passamos inevitavelmente por momentos de crise, e eu as encaro como oportunidades. A crise não deveria ser encarada como uma punição somente. A crise acaba se tornando sempre uma oportunidade. Oportunidade de quê? A crise é uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento, especialmente uma chance de renovação da mente. O pensamento antecede o comportamento. Pensamento renovado produz conduta aperfeiçoada. Ao longo de sua história, infelizmente muita gente vai se comportando de maneira muito instintiva, impulsiva, devassa, libertina, debochada, pecaminosa, violenta, maldosa. A crise então tem esse aspecto de oportunizar uma profunda reflexão, a fim de que cada ser humano enxergue que talvez estivesse mesmopercorrendo um caminho de autodestruição. Nessa tribulação toda, a criança sofre mais, pois não entende nada do que está acontecendo. E vejo aqui outra oportunidade: uma chance que os adultos tem de, renovados na mente, poderem orientar bem melhor uma criança, a fim de que ela então habite o tão sonhado mundo novo, um mundo com pessoas mais humildes, com estilo de vida mais simples, edificado na partilha, mantendo o olhar fixo nas realidades espirituais eternas.
 
6. Jornal da Região: No seu ponto de vista, as pessoas atualmente estão tendo mais temor pela crise ou pelo Coronavírus?
Rodrigo: De novo não podemos falar “as pessoas.” De qual pessoa estamos falando? Precisamos ouvir pessoa por pessoa. Em Psicologia não podemos ter nenhuma pretensão estatística estadunidense que generaliza sempre, reduzindo ou distorcendo nossa capacidade de análise. Então, tem gente preocupada mais com a crise e menos com o mal estar ou com a morte causada pela grave síndrome respiratória? Sim, tem, tem gente mais preocupada com a crise, em perder os negócios, os investimentos, o bens materiais. E também tem gente mais preocupada com a morte do que com a crise, e abre mão de posses materiais para ter a pessoa amada viva, do lado. Precisamos ouvir cada pessoa. O que é importante e prioritário para cada um.
 
7. Jornal da Região: Na entrevista que você fez com o Padre Reginaldo, você colocou que em Psicologia, entende-se que crise e sofrimento não são punições, e sim oportunidades de desenvolvimento e fortalecimento. Mas, numa época tão difícil como a que estamos vivendo, como convencer as pessoas disso?
Rodrigo: Nós não convencemos. Nós apenas mostramos que, apesar de doer demais, a dor pode nos fortalecer. Aprendemos com ela. Mas enxergar desse modo é uma decisão pessoal. Tem gente que acredita de outro jeito, ou seja, que a crise é uma punição mesmo, um castigo, uma ceifa.
 
8. Jornal da Região: Quais os principais danos psicológicos, a longo prazo, serão mais comuns no período pós-pandemia?
Rodrigo: Não sei prever isso. Mas tenho uma pista, talvez... O que tenho sentido na minha experiência de atendimentos diários, em algumas pessoas, é uma crise do desapegar-se. Que dizer: uma incômoda necessidade de despojamento, uma nova vida que aponta para algo mais simples, mais misericordioso, mais altruísta. Isso de fato incomoda muita gente, pois tem gente que tem maior tendência ao egoísmo, que não quer abrir mão de prazeres e privilégios, e frequentemente se sente mais ameaçada pela ansiedade e melancolia. A crise para gente assim não é encarada como oportunidade de aprendizado, e sim como pânico.
 
9. Jornal da Região: O que você sugeriria para que as pessoas se fortaleçam mais mentalmente e encarem a vida com um pouco mais de leveza, mesmo em tempos de tanta rudeza?
Rodrigo: Autoconfrontação e autoconhecimento, respaldados por atividades meditativas e orantes – diárias. Somente assim edificaremos a recompensa. Qual é a recompensa? A recompensa é saúde mental, equilíbrio emocional, comunhão, justiça, felicidade e paz.

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